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domingo, 3 de abril de 2011

Transpondo

A música ocidental em geral é criada dentro de um ambiente sonoro hierárquico, que a gente chama de TONALIDADE. O que isso quer dizer? Quer dizer que existe um "ator" principal, o acorde que dá nome à tonalidade, e os outros acordes "giram ao redor dele", digamos assim, sempre tentando voltar pra ele. Muitas coisas já foram criadas para romper isso (como a música atonal) e outras culturas não se valem desse tipo de relação (como na música indiana) mas...para nós, ocidentais, essas regras ainda valem muito, especialmente dentro das músicas que costumeiramente conhecemos.

Então...às vezes a gente acha que o compositor fez uma obra prima - meu Deus, como alguém pensa numa música assim? - quando, na verdade, ele só está se utilizando de regras comuns e conhecidas. Claro que não estou desmerecendo o trabalho de nenhum compositor porque, afinal, a criação está justamente em COMO ordenar esses acordes se utilizando das regras e, principalmente, como e em que momento rompê-las. A música é realmente uma coisa deliciosa e impressionante que, exatamente como no mundo "real", tem regras, mas estas podem - e até devem - ser quebradas. (risos) Enfim...a música é o mundo, hum.

Bom, mas estou explicando tudo isso pra dizer o seguinte: a música geralmente está numa tonalidade original, ou seja, que o compositor fez, porém cada cantor vai cantar em uma tonalidade diferente. Então, tipo...se o Djavan fez uma música pra ele cantar, eu, que sou mulher, quase com certeza vou precisa mudar aquela tonalidade. O nome desse processo é TRANSPOSIÇÃO: mudar de uma tonalidade para a outra, sem mudar o formato, os intervalos e a idéia original do compositor.

Como cantora, preciso muito fazer isso. Noto que os instrumentistas de modo geral - com raras exceções - não gostam de fazer transposição. Seja porque o original é muito complexo, porque foi feito para o instrumento dele (no caso do violão, por exemplo, se utilizando de cordas soltas e outros recursos técnicos), seja por pura preguiça, hihihi, a maioria não gosta.

Estou aqui fazendo a transposição de uma música bem simples, Lata D'água, de Luiz Antônio e Jota Júnior. (Segue o vídeo na voz da cantora Marlene, pra vocês verem como ela canta numa tonalidade alta, aguda. Pra mim, estou tendo que baixar um pouco.)



Eu gosto MUITO de fazer transposição. É como se nesse momento eu fosse obrigada a entender melhor as relações entre os acordes que o compositor criou (e talvez eu nem prestasse atenção, ocupada que fico com a melodia). Tenho uma certa facilidade pra fazer isso. Muitas vezes não preciso escrever, vou lendo e transpondo, tudo ao mesmo tempo.

Isso só peguei músicas simples, né? Estou tendo que estudar essa Passarim, de Tom Jobim, e a transposição já não é tão fácil, mas...acho que quero tentar. Depois. Olhem que complicada:



C7M(omit3)           Ab(b5)     G   Ab7(4/9)  G7(4/9) 
Passarim          quis pousar,  não deu, vo--------ou 
G(add9)      Gm9-        F#sus2           Gm(7M)   Gm7 
Por----que o tiro     partiu          mas não    pegou 
     Gb7M(#5)   F7M(6)     E7     Eb7M(9) 
Passarinho   me con---ta então me diz 
                  Eb7M(#9)              D7/4(b9) 
Por que que eu também     não fui feliz 
                D7(b13)            Gm7(9)          Cm7        Gm(7M/9) 
Me diz o que eu fa-----ço da paixão       Que me devora o coração 
Gm7      Cm7           Gm7(9)           Cm7         Gm7(9)           Cm7         Gm7(9) 
Que me devora o coração       Que me maltrata o coração    Que me maltrata o coração 
               C7(4/9)  C7(b9)        F7M  F6     Bb7(4/9)      Bb7(9)   Eb7M(9) 
E o mato que é bom,   o fogo  queimou      Cadê o fo------go, a água  apagou 
         D7(b9/13)  D7(b9/b13)    Gm(7M/9)  Gm7     A7/4(b9)    A7(13)      D7M(9) 
E cadê a água,    o boi        bebeu        Cadê o amor,    o gato    comeu 
    Em7      A7(b9)  D7M(#5) D7M      Gm7   C7(b9)  F7M(#5) 
E a cinza se espa----lhou         E a chuva carre---gou 
  F7      Bb7M      Gm7     D(omit3) 
Cadê meu amor que o vento levou 

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