Hoje é um dia de disco. Também não estou interessada nos últimos lançamentos, nos maiores públicos, nas inúmeras resenhas de críticos...vocês têm muitos sites pra ler tudo isso. Então é coisa nova, é coisa velha...é o que chega, quando faz sentido, no momento que deve ser. Enfim, essa coisa sem muita metodologia (mas absolutamente disciplinada e constante) que sou eu. (gargalhada)
Hoje é esse disco imperdível e delicioso, Padê - de Juçara Marçal e Kiko Dinucci:
Padê (na verdade, Pàdé, do iorubá) pode ser entendido como encontro, encontrar. É mesmo um lindo encontro. É a cerimônia que se faz pra Exú no início de muitos (ou quase todos) os rituais do candomblé. Tanto Juçara quanto Kiko têm muita vivência e encontro com a religião de matriz afro-brasileira. O Padê é uma cerimônia simples, com farinha e água, pro mensageiro dos orixás levar o recado e pedir a licença pra dar início à cerimônia. Uma explicação simples dessa humilde admiradora da religião mas que sabe pouco pouquinho...Quem souber explicar de modo mais completo e profundo, vou amar, por favor use aí nossos comentários.
Pois bem. Nesse "dá licença", nesse encontro belo desses dois músicos incríveis - o primeiro de muitos, pois o disco está fazendo 10 anos de lançado e depois dele eles já tiveram mil parcerias - vocês podem ouvir harmonias interessantes com divisões rítmicas inesperadas, muito batuque de candomblé, muitos instrumentos percussivos que metade de nós nunca nem ouviu falar (tambu, quinjengue, unhas, rufo, carimbó). Uma arte gráfica simples, rústica e linda, feita pelo próprio Kiko: de um lado o rosto dela; do outro, o dele. O verso e o reverso da união desses dois compositores/estudiosos/intérpretes que se misturaram e se reinventaram. Há quem diga que é um disco pré-Metá Metá.
Talvez vocês conheçam Juçara dos vocais dessa banda massa que apareceu no início dos anos 2010. Ouvi uma entrevista em que Juçara disse que o Metá Metá foi a vontade deles de unir o que viviam no mundo musical profissional e as músicas que vivenciavam nas suas práticas religiosas. Achei que fizeram isso de modo muito respeitoso e sem se apropriar de maneira indigna dos ritos (coisa rara). É apenas eles sendo eles, com toda sua bagagem musical, religiosa, social, emocional, etc.
Mas eu já conhecia Juçara de outros carnavais. Ela é uma cantora extremamente eclética e estudiosa - o que me apaixona. Ela se envolveu e continua se envolvendo em diversos projetos vocais, sempre se aprofundando na música brasileira e toda a sua riqueza. (Pelo amor de Deus, olhem essa agenda!) É incrível como ela consegue ser delicada e tão forte ao mesmo tempo, vocalmente falando. Não acho a performance dela algo espetacular, mas muito firme, verdadeira e precisa, o que já me faz admirar e querer ver sempre que posso. A voz dela é uma delícia a parte nesse disco, onde acho que ela consegue mostrar toda sua capacidade vocal (até aquele momento, claro).
Kiko é outra figura eclética, profícua, criativa e - nas palavras da própria Juçara - vigorosa! Ele lançou seu primeiro disco (depois de tanta produção!) em 2017, Cortes Curtos, que simplesmente é um disco...de punk! (risos) É muita criatividade pra um artista só, gente. E ele faz tanto esse disco de candomblé (?), quanto aquele disco de punk, quanto a produção gráfica dessa capa, de maneira ímpar, própria, pessoal, presente, inteira. Realmente um artista admirável.
No Padê vocês podem ouvir arranjos de muita delicadeza em pianos e violões e muito vigor nas percussões e nas claves utilizadas. Muita delícia nas letras, muita desenvoltura no instrumental.
Enfim, um disco que vale muito a pena, que não tiro do som e ando ouvindo muito e muito. Só não furou porque não é físico, haiahiah.

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