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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Reflexões de véspera

Você tem que ajeitar os arranjos, o figurino, o cenário, a qualidade das cordas da guitarra. Tem que ajeitar a maquiagem, o sapato, a cor do cartaz e a microfonação daquele instrumento esquisito que só vai aparecer uma vez. Você tem que ajeitar muitas coisas pra fazer um show. Se ocupar com a qualidade do som, a beleza das cores e cuidar com carinho da criatividade de todas as pessoas ao seu redor. Mas tem uma coisa que talvez você tenha que cuidar mais que todas: da sua cabeça.

Fazer um show num teatro é uma delícia, mas também um risco. Sim, as pessoas foram lá te ouvir, que ótimo. Você não está concorrendo com o garçom, a gelada, a loura gostosa, o gatinho da outra mesa (obrigada, meu Deus). Que ótimo, as pessoas gostam mesmo de música, não é? Elas foram ali pra ouvir sua música, vivaaaaaa!! Mas elas também SÓ foram fazer isso. E elas querem ouvir coisa boa, e elas merecem ouvir coisa boa.

Mas são tantas coisas...Quando você está fazendo um show seu, um projeto em que você acredita, você mostra a sua VERDADE. Mostrando minhas próprias músicas, então? Nossa, quanta verdade tem naquilo. Mas...será que a sua verdade é sempre bonita? É sempre "boa"?

De certo modo, qualquer artista está um pouco preso aos padrões estéticos do seu tempo. Da sua cultura. Da escola que segue (se há). Mas ao mesmo tempo ele é livre. Ele tem que ter um mínimo de domínio de certos elementos e - eis a graça - sair misturando de um jeito inusitado. De um jeito diferente. De um jeito que só ele poderia fazer.

Mas será que é só isso mesmo que faz um artista?...

Um arranjador me disse: "Mas não se usa 9a nesse trecho de samba nenhum." Ora, mas o meu samba tem uma 9a e eu quero essa música assim. Meu diretor me disse: "Se ela fez a música assim, vai ficar assim. Essa 9a significa alguma coisa pra você?" Eu disse: "Sim, significa muito!" Ele disse: "Então vai ficar a 9a! Muda a harmonia toda, se virem, mas essa 9a vai ficar." (risos) Ele acreditou em mim. Na minha verdade. E topou sair um pouco desse padrão estético pra deixar a minha verdade ali.

E será que as pessoas vão gostar? Será que elas vão entender que eu fiz de propósito? Não vão achar que tem algo fora de lugar? Vão achar que tem algo "estranho, mas legal"? Vão achar que valeu a pena? E será que o que essa 9a significou pra mim (uma tensão, um adeus, uma tristeza, uma confusão) vai ressoar no coração das pessoas também?

Nunca saberemos.

E cada platéia, cada público, cada vez, vai ser diferente. Cada reação é uma.

Hoje a professora de canto disse: "Ninguém canta samba assim. Mas se você quer que o seu samba seja assim, cante com verdade. Não tente se adequar. Se você acredita nisso, faça com que as pessoas também acreditem." E ela cantou como seria fazer a mesma coisa que eu estava fazendo, só que com "verdade". E eu chorei. (Hum, eu sou boba mesmo. Estou escrevendo e chorando de novo.) Porque a verdade é isso, é algo que é seu e que toca o coração do outro, sem esforço.

Já é domingo! Vou estar lá, mostrando a minha verdade, as minhas verdades, minhas histórias. Não sei se vai ser bonito ou feio, se vai agradar ou desagradar as pessoas. Resolvi correr o risco. Pagar pra ver. Eu só espero, SINCERAMENTE, que a verdade de cada um possa ser convocada pra fora; que vocês possam sair de lá sentindo qualquer coisa - alegria, raiva, amor - mas que seja qualquer coisa SUA. E VERDADEIRA. Como eu sei que vou estar sentindo as "minhas coisas" ali no palco, junto com vocês.

Êa! Bora Gamboa!

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