Páginas

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Badi Assad e o BTCA

"Quando a gente amadurece, tudo nos emociona." Foi a frase de uma das bailarinas do Ballet Teatro Castro Alves (BTCA). E eu me identifiquei perfeitamente. Foi assim que assisti ao show de Badi - chorando o tempo todo.

Foi um show que custou 1 real (com direito a meia!) no projeto de domingo do TCA. Nem houve fila, praticamente. Estava bem vazio as 9h, quando abrem o teatro e a venda de ingressos. Mas, até as 11h, as pessoas foram chegando e o teatro ficou cheio mais ou menos até a fila W. Foi a coisa mais linda e tocante que eu assisti esse ano, devo dizer a quem não foi.

Um show de Badi Assad, apenas voz e violão, juntamente com a coreografia "A quem interessar possa", do BTCA. Ela disse que chegou em Salvador na quinta-feira e que eles tiveram apenas esses 3 dias pra conectar uma coisa à outra.

Na coreografia, a iluminação é o cenário e, à medida que os bailarinos vão sendo iluminados e fazendo solos dentro de um quadrado de luz, vai tocando um playback com depoimentos deles. A média de idade é de 50 anos. Como bailarinos profissionais quaisquer, todos eles começaram dançando quando eram crianças. Imaginem quanta história pra contar tem um corpo depois de 30, 40 anos de dança. Foi lindo ver aquelas pessoas "maduras" falando sobre suas histórias de vida. Em como a arte - no caso, a dança - tinha lugares diferentes pra cada um deles. Alguns, já com carreiras paralelas; outros, apenas dançando; outros que pararam de dançar (por questões familiares, profissionais ou doença) e falavam do milagre que era seu corpo ainda responder à dança daquela forma. Confissões de amor à família; do prazer do sexo que aquele corpo também faz; de separações amorosas e traições vividas; do uso do corpo em outras profissões. Eu chorei por ver como é autêntica e linda e tão particular a vida de cada um, todos nós.





Eles fizeram algumas coreografias coletivas, em pequenos grupos. Tão lindo, sem aquele quadradismo que, em geral, a gente vê, de todo mundo dançando ao mesmo tempo, tão cronometrado. Oras cronometrado, oras não; oras só as mulheres, oras só os homens e oras qualquer um. E a luz montando quadrados, caminhos, círculos, estradas, traços. Vixe, lindo! Eu chorei pensando que, quando eu tiver a idade deles, talvez boa parte daqueles corpos, tão lindos, tão harmoniosos, tão cheios de vida única e particular, já nem vão estar mais sobre a terra.

E Badi? PelamordeDeus! Nem sei do que falo primeiro...tudo tão fantástico!

Vou começar pelo violão. Preciso dizer a vocês que foi difícil acreditar que só tinha uma pessoa tocando um violão ali no palco. Acredito porque vi. Eram dois quase o tempo todo no meu ouvido, tal a precisão com que ela deixava soar os baixos, os médios, as melodias. Muito à vontade com o instrumento, muito mesmo. Ela tocou coisas mais complexas, de harmonia complicada, mas também coisas tãaaaaaaao singelas, delicadas, de duas ou três notas, que ficaram absolutamente lindas! Ela realmente conseguiu criar um AMBIENTE SONORO, não simplesmente (e já tanto) música. Em uma música, apenas, sei que ela precisou de um recurso eletrônico, uma pré gravação do próprio violão, que tocou lá em playback. O resto...foi ela mesma, ao vivo. Ela também usou o violão como percussão, como recurso coreográfico, e até colocou ele "de barriga pra cima", no chão, tocando como os japoneses tocam seu instrumento tradicional, num cantinho do palco. O que foi aquilo? E o Ballet dançando, e a luz criando cenários...meu Deus. Eu chorei porque a arte é linda, o ser humano é capaz de criar coisas tão fantásticas, e é tão bom estar viva e poder ver tudo isso.



Com a voz...ai! Ela cantou, afinadíssima, colocando a voz pra lá e pra cá como se fosse uma coisa qualquer. Ela sussurrou, ela gritou guturalmente, e até desafinando ficou linda, porque tinha tudo a ver na hora. Ela fez o Ballet cantar em coro pra que ela solasse, ela fez harmonias com a voz e o violão. Ela fez percussão com as palmas, os braços e a voz. Eu chorei porque ela expressou tantos sentimentos com a voz e eu também expresso tanto de mim com a minha.

Enfim, gente, que o espetáculo foi...verdadeiro. Vocês sabem aquela coisa que vem da alma? Que te põe em pêlo na frente de todo mundo e você simplesmente não tem vergonha, porque aquilo é o que você é, e não se pode achar feio ou bonito algo que simplesmente É? Pois foi isso. E eu chorei, porque vi a alma daquelas pessoas, e achei tudo tão lindo e tão feio, como vejo também a minha alma, simplesmente SENDO.

:,)

Nenhum comentário: