Eu estudei as duas. Então acho que posso falar de cadeira. O canto lírico surgiu numa época em que os cantores tinham que cantar com orquestras em teatros e auditórios para 1.000, 2.000 pessoas. O canto popular é da era pós-microfone, em que você pode até sussurrar e será ouvido. Como se pode dizer que as duas técnicas são iguais? É não conhecer nada de história da música ou mesmo de emissão sonora.
Ambas, claro, usam o mesmo instrumento: o corpo humano. Então ambas se utilizam de um mesmo sistema de musculatura, a saber: músculos laríngeos, cervicais, toráccicos, intercostais, abdominais, diafragmáticos. Uia! Acharam que pra cantar era só abrir a boca? Que nada! Exige muito estudo e dedicação.
Claro, estou falando de um músico profissional, que pretende ter uma vida útil como cantor por pelo menos 30 anos. Se você só canta nas festinhas familiares ou se você é cantor profissional mas não tá nem aí se estragar sua voz, porque um dia vai trabalhar com outra coisa...então tudo bem, abre a boca, regula a afinação e vai. Mas se você pretende ter qualidade sonora e, ainda assim, não estragar seu aparelho vocal...é bom procurar um professor de canto (eu dou aula!).
Bom...ainda vou falar muuuuuuuito sobre tudo isso, mas hoje o que quero falar é o seguinte: por questões que eu considero históricas, raciais e culturais, o canto lírico sempre valorizou mais os agudos. Minha voz sempre foi mais aguda, então todos achavam lindo e eu trabalhava bastante esses agudos, alcançando notas como fá e sol 4, por exemplo. Não sou nenhuma sopraníssima mas, para a média da população, são notas altas.
Estudando a técnica de canto popular, que não se utiliza desse tipo de classificação vocal, mas pretende aproveitar (e, quem sabe, extender) a extensão natural da voz do cantor, fui trabalhando também os graves e hoje posso dizer com orgulho que consigo emitir belos graves. Novamente, não sou nenhuma contraltíssima, mas...chego ao mi e as vezes ao ré 2. (Engraçado que meus agudos também se extenderam ao trabalhar os graves (cuma?! hihih, outro dia explico), e hoje chego ao si4.)
Ok, bacana. Mas aí tem a coisa do registro. Sendo considerada soprano no canto lírico, eu sempre me utilizei do registro que a gente chama "de cabeça", que é um registro mais agudo e mais leve. Trabalhando os graves, aprendi a usar mais o registro "de peito", mais pesado e grave. No popular, a gente trabalha muito com o que chamamos de "voz mista", que é algo que não tem muito no lírico (eu, pelo menos, nunca trabalhei), então é algo novo pra mim e não tenho lá muita facilidade. Pense que é como se existisse um continuum de vibração da voz no seu corpo, e uma nota grave vai começar lá na caixa dos peitos (hihihi) e uma muito aguda vai terminar lá no cucuruto da cabeça. Pra você fazer o som viajar por todo esse percurso, você vai mudando a voz de lugar. É mais ou menos o que a gente chama de registro.
No lírico esses registros são mais estanques. Quer dizer, se você é soprano, provavelmente vai trabalhar muito (e, possivelmente, apenas) o registro de cabeça; se você é contralto, o de peito. E isso vale para os meninos também, tenores, baixos e toda a variação de coisas que existe entre um e outro.
No popular não, você vai brincar com todos esses registros, passando o som de lá pra cá e de cá pra lá, a depender da extensão da música e mesmo da interpretação que você queira dar a ela. Então, digamos que estou aprendendo a brincar com a minha voz, de lá pra cá.
Já estou bem melhor hoje. Antes era horrível, você ouvia a diferença quando eu mudava de um registro pra outro. Hoje as vezes se ouve, as vezes não. Mas estou melhorando nisso aí.
A questão é que fiquei tão dedicada, gostei tanto dos graves, estou procurando sentir tanto a voz mista que...deixei a voz de cabeça de lado e, como minha professora disse, criei uma resistência à voz de cabeça, ao ponto de que agora eu ando desafinando! Mas veja só que absurdo!

E aí...mesmo assunto do post passado...comecei a sofrer com isso. Sofrer porque ia cantar. Porque talvez não conseguisse a voz mista; talvez desafinasse; talvez me preocupasse tanto com a técnica que a interpretação fosse embora; talvez, talvez, talvez...ARGH!!
Ontem teve ensaio pra apresentação do dia 09 (vão!) e aconteceu tudo isso. Aí eu cheguei em casa e pensei que eu já decidi parar de sofrer, então vou parar de sofrer com isso também. Ora, cantar é pra ser uma coisa divertida e deliciosa, e eu perdendo tempo querendo "fazer direito"? Me poupe!
Peguei as músicas da apresentação e cantei tudo de novo. Meus vizinhos são ótimos, eu fico lá emitindo meus agudos 23h30 da noite e ninguém fala nada. E aí eu usei voz de cabeça, voz de peito, voz de tornozelo e de cotovelo à vontade (risos). E as músicas ficaram lindas! Muito mais verdadeiras e com a minha cara.
Vou continuar treinando. Espero conseguir fazer isso no palco também pra vocês verem o resultado. Delícia de minha vida que é cantar! Vão me ver!!


